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quarta-feira, 11 de abril de 2012

A violência nossa de cada dia

Sítio na área rural de São João do Oriente (MG)
Sou do interior de Minas Gerais, cresci na roça e não me acostumei com a violência da cidade grande. No meu tempo de criança São João do Oriente, minha cidade, era um lugar bucólico, ideal para passar os dias tranquilamente, sem fazer nada, e recarregar as energias perdidas na correria da cidade grande.

Violência sempre existiu na região. Há algumas décadas, as desavenças, quaisquer que fossem, eram resolvidas na faca, ou na bala. Meu bisavô foi assassinado pelo sobrinho, na década de 1930 ou 1940. O motivo foi banal. Ou não. Banal foi o que criou esse motivo e levou ao assassinato. Meu bisavô implicava com o sobrinho e dizia que o mataria. O menino sacou primeiro. Mais recentemente, acho que em 1989, um primo do meu pai foi assassinado pelo ex-cunhado. O motivo? A perseguição que ele fazia à família da ex-esposa. Dizia que ninguém da família prestava, que mataria alguém do lado de lá. Falou tanto, provocou tanto e foi assassinado sem chances de defesa.

Vista da área rural do Município de São João do Oriente (MG)
Mas não existia lá a violência como profissão, que é coisa de cidade grande. Tudo mudou de uns tempos para cá na minha roça antes calma. Teve recentemente até uma execução nos moldes das periferias das grandes cidades. O rapaz estava na porta de uma venda (bar), quando dois homens em uma moto atiraram nele. Execução causada pelo tráfico de drogas.

Outra coisa que quase não existia por lá era assalto. Sempre ouvi histórias de furtos, mas assaltos, com o uso de armas de fogo, não existiam. Atualmente a coisa anda feia. Todo mundo está com medo por lá. As portas estão trancadas. Cogitam até a construção de muros.

Nos últimos meses duas histórias assustaram muito. Em setembro de 2011 um casal de idosos, quase octagenários, foi assaltado em uma segunda-feira pela manhã. Um homem armado entrou na casa, agrediu os dois, destruiu alguns movéis e roubou o dinheiro que estava com eles. No último sábado, 07 de abril de 2012, dois indivíduos armados assaltaram a venda (bar) da região. O assalto foi por volta de oito horas da noite. A venda no interior é um lugar de socialização, de encontrar os amigos após um dia de trabalho. Os frequentadores foram ameaçados pelos ladrões. Esta venda funciona neste mesmo endereço há mais de quarenta anos e nunca havia sido assaltada. Foi a primeira vez.

Parece pouco, dois assaltos em seis meses. Mas não é, porque isso não acontecia por lá. E esses dois casos não foram os primeiros. Meus pais, tios e amigos, a maioria idosos, estão com medo de morar na nossa comunidade rural. Parte dessa violência tem relação com o tráfico de drogas (especialmente o crack) nas pequenas cidades da região. São João do Oriente já foi um paraíso de tranquilidade, lugar para dormir com portas e janelas abertas. Hoje não é mais. Uma pena!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ao meu amigo Toninho!

Lá de onde eu venho, São João do Oriente (MG), as pessoas costumam dizer que o fim do mundo está próximo, pois é tanta violência, tanta safadeza, tanta coisa ruim, que isso só pode ser prenúncio do fim do mundo. Vez que outra me espanto com essas coisas. O mundo não ficou mais violento, - ou ficou? - nós é que sabemos mais desta violência. Mas na cabeça daquela gente lá do Oriente, o mundo endoidou! As estatísticas estão aí, o Jornal Nacional dá manchete todo dia, tem até jornal especializado em noticiar só assassinato, estupro, roubo, estelionato, corrupção, etc, etc. Quando a coisa acontece nas regiões mais ricas das cidades, o destaque aumenta. Se é lá na periferia, fala-se menos! Meu amigo Toninho morreu no meio da rua e não atrapalhou o tráfego! Procurei nas manchetes da Folha, do Estadão, nos portais de notícia, nos blogs de esquerda, de direita, de centro, naqueles "meio intelectual meio de esquerda", e nada! Nem uma linha sobre sua morte!

Toninho nasceu e cresceu no Oriente. Mas como quase todo brasileiro pobre do interior migrou para a cidade - no seu caso São Paulo - ainda adolescente. Foi na esteira dos irmãos mais velhos, que estavam trabalhando por lá e tendo sucesso em seus empreendimentos. Foi, viu e venceu! Casou, enricou, teve filhos, separou, teve netos, mudou e casou de novo. Depois de mais vinte anos em São Paulo, voltou para Minas Gerais em 2000, em busca da tranquilidade das cidades do interior. E assim foi! Continuou trabalhando, vivendo. Era um sujeito boa praça.

Em 2008 voltou à São Paulo para ajudar a irmã que enviuvara recentemente. Viuva e com um filho recém-nascido. Depois de passar o domingo brincando com o neto, Toninho foi levar a filha em casa e não voltou. Foi assassinado no caminho entre o Jardim Rosana e o Parque Regina na periferia de São Paulo. Um assalto e o ladrão, não satisfeito com o celular, a carteira e o carro, atirou! Na mídia nem uma nota sobre sua morte. Sobre todas as mortes que acontecem em lugares como aquele!

Restou a nós, seus amigos, o gosto amargo da derrota e da impotência diante desta situação. Nessas horas me pergunto se não é verdade aquela crença dos Orientenses lá! Mais um sujeito jovem - 42 anos - que se vai. E nós que ficamos nos recolhemos mais. Até quando?

quinta-feira, 13 de março de 2008

Dos dias de chuva, tristeza e solidão!

"Vivemos numa época complicada". A frase de uma dançarina espanhola, dita ao meu amigo Júlio, soa como um sentimento global. Em todos os países, em todos os lugares as pessoas devem estar pensando, falando e sentindo: vivemos em uma época complicada. Complicada pelas toneladas de coisas que sabemos, ficamos sabendo e muitas vezes não gostaríamos de saber sobre guerras, violência, fome, preconceito e exclusão. Vivemos numa época complicada porque sabemos demais. A cada ato de desumanidade que assistimos, a cada agressão que nos chega pela TV, jornal e, principalmente, Internet nos assustamos com nossa bestialidade. Mas não foi assim desde os primórdios do homem, com seus sacrifícios aos deuses, com os "inimigos" atirados aos leões, com a fogueira da inquisição, com a matança no novo mundo e outras atrocidades que fazem parte da história evolutiva da humanidade? Por que nos assustar com a violência, se ela está em nosso DNA? Por que nos sentir revoltados com as desigualdades sociais e com as privações de bilhões, se o que queremos é nossa glória individual? Se nosso maior desejo é o consumo desenfreado, sem limites e sem nos importar com os outros? Estes paradoxos são tão inexplicáveis quanto nosso sentimento de solidariedade diante da tragédia. De repente somos tomados de profunda comoção com o sofrimento do outro. Mas ainda assim fazemos isso por puro egoísmo. Sofremos pelo outro porque nos imaginamos no lugar dele, passando pelo mesmo sofrimento.
Nestes dias, quando vimos nosso alma arrastada presa a um carro por sete quilômetros, passamos a bradar por justiça com mais força e vigor. Queremos a cabeça dos monstros capazes de tamanha crueldade. Dos pensadores mais ilustres da nação ao mais simples dos homens, todos clamam por justiça, uma justiça bíblica até: olho por olho, dente por dente. Devemos prender os monstros em um carro e arrastá-los pelos mesmos sete quilômetros de terror, que tanta vergonha e indignação nos causaram.
Nossa individualidade, ganância e egoísmo nos impedem de ver o quanto somos responsáveis pelas monstruosidades que são cometidas todos dias contra crianças, jovens, adultos e velhos. Da fome à supressão dos direitos mais básicos, muitos são os ataques covardes à condição humana. E quando os monstros resolvem sair à caça, nós os financiamos e facilitamos sua ação. Pequenos atos, que parecem banais, podem gerar ondas gigantes de destruição e crueldade. É infinita a lista de atos dos homens de bem que ajudam a criar monstros capazes de arrastar nossa alma por aí. A manutenção de nossos vícios, a vontade de levar vantagem em tudo, nos fazem caminhar à margem da lei e criar os monstros que tanto nos aterrorizam. E depois só nos resta buscar culpados e clamar por justiça, justiça bíblica, lei de talião. Vivemos numa época complicada!

Ronaldo Silva (depois de ler "Do amor e outros demônios" e ouvir o clamor que brota do seio da terra por justiça e punição para os monstros do Cascadura.)